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comentarios a: diego@diegomartinezlora.com


ISBN 972-96996-8-9
Diego Martínez Lora

Aquí, Vila Nova de Gaia, Torre de Gente, 2012  136 p.  

13.00 Euros


 

99 relatos breves que constroem um universo onde a marca pessoal se manifesta.
O humor, a caricatura, a crítica, o absurdo, a fantasia,
o lúdico, a observação, a meditação e sobretudo a realidade única de personagens
que não se resignam com o destino que lhes toca viver.

 

 

 


Apresentação do livro Aqui por Esther Slotboom - 07/12/2012   Gaia

 

 


Vingança Perfeita

Custou-lhe andar e muito, mas já estava ali pronta para saltar. Teve que ir buscar forças ao impossível para descolar parte do seu corpo que tinha aderido ao piso devido ao impacto que sofrera na sua queda brutal. Tinham-lhe dado com alma, mas felizmente em pleno voo. De outro modo já não nos poderia ter contado nada. Levantou-se do chão com as patas que ainda conseguia mover. Aproximou-se lentamente da mesa. Subiu por uma das pernas de madeira sem que ninguém se apercebesse. Apesar da mesa se mover de vez em quando devido a todo o movimento dos comensais, e de o seu corpo tremer por causa dos vozeirões que gritavam ou davam gargalhadas em estúpida conversação, alcançou a superfície da mesa que, para sua sorte, era escura e não tinha toalha posta. Aproveitou-se dos guardanapos usados para se esconder, e praticamente arrastando-se localizou o prato do seu maldito agressor que todavia continuava a segurar numa das mãos um mata-moscas vermelho. Subiu desde a base à borda do prato de porcelana barata e, sem que ninguém a descobrisse, ali estava, pronta para saltar e consumar a sua sentida vingança. Estava até com água na boca. Não pode evitar sentir uma vontade louca de viver, mas sabia muito bem que não iria durar muito mais no seu deplorável estado de saúde. Respirou profundamente, quase zumbiu e lançou-se ao prato de sopa do seu assassino para se afogar com a boca aberta naquilo de que mais gostava: sopa de peixe.

-Maldito, disse, vinguei-me.

Decorridos poucos segundos ouviu-se uma voz escandalizada:

- Aaai! Há uma mosca na tua sopa! Que nojo!

A vingança foi perfeita.

 


Juramento

Mané despertou e disse de si para si:

-Serei bom a partir de hoje. Juro que o serei. Vou participar muito mais nas coisas da casa. Serei mais prestável e carinhoso. Juro que serei mais tolerante e compreensivo. A minha família merece.

E assim se levantou da cama começando o ano de 2013, e a primeira coisa que fez foi dar um beijo à sua mulher que já tinha começado a resmungar porque todos os dias era a mesma coisa, nem sequer no primeiro dia do ano se podia levantar tarde e ter o almoço pronto, que era sempre ela que cozinhava e que fazia tudo, que se tivesse sabido que a sua vida seria assim, que estava farta…

Mané regressou em silêncio à sua cama para tratar de dormir novamente como se nunca tivesse chegado a acordar. Deste modo o seu juramento estava uma vez mais anulado.

 

 


 

Exacerbado Amor

Deitado na cama nem se movia, ainda que a nível microscópico se estivesse a desenrolar em todo o seu corpo como uma epopeia, uma luta desenfreada pela sobrevivência. No entanto, à vista desarmada era uma estátua viva em posição horizontal de um homem que tinha sido escultor de figuras lendárias da sua comunidade. Com os olhos fixos e muito abertos conseguia ver tudo. Gostava muito de uma das enfermeiras. Os olhos dela não tinham uma cor definida e quando ele os via de perto, sorria profundamente, encerrado no seu rosto rígido e imutável. Ela segurava-lhe as mãos com tanta doçura, ele não sentia nada. Tão próximo dela e não conseguia sentir o seu cheiro, nem a agradável temperatura do seu sensual corpo. Apenas a olhava com os olhos quase mortos e assim imaginava o perfume e o calor que essa mulher espalhava por todo o quarto. Nesses olhos secos e estáticos, umas poucas células vibravam loucas de amor, de exacerbado amor.

em Diego Martínez Lora, Aqui , Vila Nova de Gaia, Torre de Gente, 2012.


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